segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Soldado, Donzela e Flor

Eugene Field (1850-1895)
[Tradução de Heber Costa]


“Toma, querida”, diz um soldado,
“E teu corajoso adeus me concede;
Talvez juntos não nos queira o fado,
Mas o amor nunca à morte cede.
Que me seja leal tua verdade aqui,
‘inda que a sina não dê certezas,
‘Alma aos céus, meu coração a ti’,
Querida, não me esqueças!”

A donzela aceitou a flor mimosa
E a embalou com seus prantos:
Ah! Partiu ele em hora desairosa
E não voltou 
pós anos tantos.
Foi-se pr’uma morte d’herói
Sob chumbo em correntezas;
Mas no peito dela ‘inda sói
‘quela flor, não-me-esqueças.

E quando não tornou ele co’a paz
Vinda dos muitos anos de sangue,
Contra o viúvo seio, ela premiu assaz
O pequeno botão ora exangue.
Oh, há amor, sossego e agonia,
Entre tantas bondades e vilezas,
Mas que convivem na harmonia
D’uma tenra não-me-esqueças.

Um túmulo anônimo e sem ornamento,
Eu hoje anseio muito visitar —
Se era azul ou cinza seu fardamento,
Que nos importa isso perguntar?
“Ele amou uma mulher”, basta dizer;
E ali, nas sagradas redondezas,
Per’imortal amor da dama, estender
Longas filas de não-me-esqueças.


                ***

Soldier, Maiden, and Flower 
Eugene Field (1850-1895)


"Sweetheart, take this," a soldier said,
"And bid me brave good-by;
It may befall we ne'er shall wed,
But love can never die.
Be steadfast in thy troth to me,
And then, whate'er my lot,
'My soul to God, my heart to thee,'--
Sweetheart, forget me not!"



The maiden took the tiny flower
And nursed it with her tears:
Lo! he who left her in that hour
Came not in after years.
Unto a hero's death he rode
'Mid shower of fire and shot;
But in the maiden's heart abode
The flower, forget-me-not.


And when he came not with the rest
From out the years of blood,
Closely unto her widowed breast
She pressed a faded bud;
Oh, there is love and there is pain,
And there is peace, God wot,--
And these dear three do live again
In sweet forget-me-not.

'T is to an unmarked grave to-day
That I should love to go,--
Whether he wore the blue or gray,
What need that we should know?
"He loved a woman," let us say,
And on that sacred spot,
To woman's love, that lives for aye,
We'll strew forget-me-not.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Arborescer

Deitado na cama, vi meu olhar descobrir lentamente minha mulher, que contemplava, com o ceticismo da experiência, a volúpia monótona da rua abaixo. As últimas luzes do dia a envolviam, desenhando em alto contraste sua imagem recostada na janela. A pele marcada e foliculosa mapeava cada passo dos meus olhos. Embora magro, o corpo claramente havia sopesado a rígida arrogância da carne na flacidez do tempo, arvorando-se de um aspecto lânguido, porém resoluto. As pernas fibrosas já não vertiam a seiva enérgica da juventude, mas se plantavam firmes no solo rachado de seus pés. Do tronco, seus seios pendiam maduros sobre o braço esquerdo e falavam da serenidade dos anos na silenciosa linguagem do corpo. O cotovelo direito apoiado em ângulo reto emoldurava seu torso, retratando as sardas de sua mais tenra maturidade. Tinha o cabelo preso, em cachos suspensos sobre o calor que ramificava de sua nuca molhada. Da boca fecunda, florescia um meio-riso viçoso — não sei se irônico ou já nostálgico — das frutíferas alegrias que parecia poder profetizar simplesmente observando as unhas esmaltadas. No rosto, podiam-se ver algumas rugas marcando as raízes de suas preocupações. Pensamentos sulcados germinavam no canto dos olhos. Eram olhos de âmbar cristalino, e sua luz perene alimentava meu sol, numa fotossíntese às avessas. Num gesto fértil, quase corriqueiro, ela virou-se para mim, desfolhada de acessórios, com a graciosidade dos ramos ao vento. E ali se deteve enquanto eu, simbionte, absorvia em catarse a beleza cotidiana que brotava daquela mulher.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu, Menino


Quando eu, menino, via o mundo lusco-fusco num branco extremo, acreditava no bem, no ser inerentemente bondoso que a sociedade corrompia, nunca alienado do benefício da dúvida. Quando menino, o terror do eu-erro acometia silencioso meu sono, um medo divino do lado lascivo das ideias, os dogmas devorando as estranhas entranhadas nas convicções. Quando eu rebrilhava os olhos no verde-fascínio de um besouro morto, pernas espinhosas fustigando a curiosidade de um menino com enigmas, crescia onírico e aventureiro. Quando o menino se chocava contra a sólida rudeza dos gestos infames, eu mortificado culpava a casca frágil da minha ingenuidade e despertava o germe inerte da intolerância transvestida de sobrevivência. Quando viu na grandeza de Júpiter sua pequenez agigantar-se, o menino-eu imaginou-se domando todas as questões bravias do universo se lhe dessem um só desejo. Quando o menino triturado pela puberdade rejuntou seus átomos no eu, foi infiltrado pela crônica ausência de lógica e agora a vida separava seus prótons de seus elétrons com vazio da certeza do caos. Quando eu, vestido capa-espada, ofereci o cavalo branco da abnegação, vi o menino destronado pelo escárnio ingrato do desprezo. Quando a névoa da guerra diária gradualmente dissipou-se na tempestade dos tempos, vi em assepsia medonha meu corpo despido e lavado do eu, menino.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Esquecimento

Esta senhora mantém uma rotina todos os dias. Acorda e joga por cima dos ombros as flores do xale, espalhando um perfume antigo. Vai ao quarto do filho, passa a mão por sobre a colcha já forrada aplainando quaisquer imperfeições como quem pede desculpas ao silêncio, como quem limpa uma memória de suas tristezas. Arruma uns lápis de cor que o rapaz nem usa mais tentando manter intacta uma infância que se foi de mãos dadas com a crueza da necessidade. Na sala, troca por outras novas as margaridas que já começam a perder do viço. Há algo que a perturba naquelas pétalas enrugadas e enegrecidas, intempéries de uma vida que andou demais na má companhia do tempo. E assim, por alguma brecha entre as grades dos afazeres de casa, todas as tardes o dia escapa despercebido, carregado pedacinho por pedacinho pelos fótons do último raio que o sol lhe jogou — último como todo raio e todo instante sempre é. É por volta desse horário que a senhora remexe a panela com a réstia de vigor que as mães usam à tardinha para se recomporem quando as chaves começam a chamar na porta da frente. E esta senhora não é diferente. Então, ela coloca dois pratos na mesa e espera pacientemente. Hoje, porém, há algo errado. Hoje, pela primeira vez, essa senhora colocou apenas um prato na mesa. Ela nunca havia esquecido. Um ano, dois meses e doze dias. Ela nunca havia esquecido. O rapaz não senta mais naquela cadeira para a qual ela agora olha fixamente, num misto de culpa e indiferença. O lugar vazio, onde sentava aquela morte que amanhecia todos os dias, foi ocupado pelo esquecimento, que entrou sorrateiro pela porta aberta da rotina. Hoje a vida descobriu que a morte vive apenas na lembrança. Hoje uma senhora descobriu que a morte nada mais é que o primeiro passo da lembrança rumo ao esquecimento.

domingo, 21 de agosto de 2011

O Sorteio

de Shirley Jackson (1916-1965)
(Tradução de Heber Costa)

A manhã do dia 27 de junho estava clara e ensolarada, com a frescura quente desses dias de verão; as flores desabrochavam aos montes, e a grama rebrilhava de tão verde. O povo do vilarejo começou a se ajuntar na praça, entre o correio e o banco, por volta das dez; em algumas vilas, tinha tanta gente que o sorteio levava dois dias para terminar e tinha que começar logo no dia 2 de junho, mas nessa, que tinha somente umas trezentas pessoas, o sorteio acabava em menos de duas horas, daí que, se começasse às dez da manhã, ainda dava para os moradores chegarem em casa a tempo para o almoço.

As crianças, é claro, se aglomeraram antes de todo mundo. A escola tinha fechado para o recesso do meio do ano. Quase todas estavam com uma agoniada sensação de liberdade. A tendência era chegarem caladinhas, ficando assim por um tempo, para depois começarem com algazarra. A conversa ainda era da escola e da professora, dos livros e dos carões que levaram. Betinho Martins já tinha enchido seus bolsos de pedras, e os outros meninos logo fizeram o mesmo, escolhendo as mais lisas e redondas. Beto e Ari de Jenésio e Dico de François — que o povo dizia “Franssóis” — acabaram juntando uma pilha bem grande de pedras num canto da praça e protegiam ela das botadas dos outros meninos. As meninas ficavam meio de lado, proseando umas com as outras, olhando os meninos por cima dos ombros. As crianças pequenininhas embolavam na poeira ou então seguravam na mão do irmão mais velho.

Pouco tempo depois, começaram a chegar os homens, cada um de olho nos seus filhos, falando de plantação e chuva, de tratores e dos impostos. Ficavam juntos, longe da pilha de pedras que estava no canto; suas piadas eram discretas, e eles mais sorriam do que riam. As mulheres, com seus vestidos de casa desbotados, chegaram pouco depois dos homens. Elas se cumprimentavam e fofocavam um pouco antes de irem para junto do marido. Daí a pouco, já perto dos homens, começaram a chamar os filhos, e eles vinham fazendo birra, depois de serem chamados quatro ou cinco vezes. Betinho Martins deu uma cabriola e escapou da mãe, que tentava pegar ele com a mão esticada, e voltou para a pilha de pedras. O pai ralhou com ele, e Betinho veio correndo e ficou no lugar dele, entre o pai e o irmão mais velho.

Quem organizava o sorteio — assim como as danças no arraial, o clube dos jovens e a quermesse — era Seu Samuel, o único que tinha tempo e energia para cuidar das atividades cívicas. Era um sujeito bonachão e jovial que tinha um negócio de carvoaria. As pessoas tinham pena dele porque não tinha filhos e a mulher lhe aporrinhava o juízo. Quando ele chegou na praça, carregando a caixa preta de madeira e acenando e falando, o burburinho aumentou entre os moradores. “Um tiquinho atrasado hoje, compadres.” O responsável pelos correios, Seu Geraldo, seguia de perto levando um tamborete de três pernas. Ele colocou no meio da praça, e Seu Samuel colocou a caixa preta em cima. Os moradores ficavam meio distantes, deixando um espaço entre eles e o tamborete. Quando Seu Samuel perguntou “Algum compadre pode dar uma mão aqui?”, o pessoal ficou meio ressabiado, até que dois homens, Seu Martins e o filho mais velho, Jessé, vieram segurar a caixa enquanto Seu Samuel remexia os papéis que estavam dentro.

[...]

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